Plano de Saúde Cobre Congelamento de Óvulos? Saiba Seus Direitos em 2025
Um direito silencioso, mas poderoso
Congelar óvulos é mais do que um desejo pessoal — em muitos casos, é uma necessidade médica urgente. Mulheres diagnosticadas com câncer, endometriose ou que precisam adiar a maternidade por tratamento de saúde enfrentam não só o desafio clínico, mas também o jurídico: o plano de saúde pode se recusar a custear o procedimento. Este artigo mostra que a resposta nem sempre é “não” — e que o Direito pode ser um aliado fundamental.
O que é congelamento de óvulos e por que ele é tão relevante?
O congelamento de óvulos (ou criopreservação) é um método de preservação da fertilidade que consiste em coletar os óvulos e armazená-los em nitrogênio líquido, a -196ºC. O procedimento é indicado principalmente para:
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Mulheres com doenças que ameaçam a fertilidade (câncer, endometriose, lúpus);
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Pacientes que passarão por tratamentos com alto risco de infertilidade;
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Casos de preservação eletiva da fertilidade (por opção pessoal).
Quando o plano de saúde é obrigado a cobrir o congelamento de óvulos?
Apesar de a fertilização in vitro não ter cobertura obrigatória segundo a ANS, o congelamento de óvulos não é sinônimo de reprodução assistida em todos os casos.
👉 Quando há indicação médica para preservar a fertilidade, o congelamento se enquadra como tratamento preventivo.
Fundamento legal:
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Lei 9.656/98, art. 10, §12: proíbe limitação de cobertura a doenças listadas na CID.
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Art. 35-C e 35-F: reforçam a obrigação de cobertura integral para procedimentos relacionados ao tratamento da doença coberta.
Jurisprudência-chave (2025):
“A criopreservação de óvulos é, no caso dos autos, medida preventiva da infertilidade. […] Inaplicável o Tema 1067 do STJ, pois a paciente era fértil. […] Demanda julgada procedente.”
(TJ-SP, Apelação Cível: 1008502-47.2024.8.26.0008, julgado em 13/01/2025)
Casos típicos em que a Justiça garante o direito
1. Mulheres com endometriose profunda
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A doença pode exigir cirurgia que prejudique ou elimine a reserva ovariana.
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O congelamento é recomendado antes da intervenção.
2. Pacientes oncológicas
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Quimioterapia e radioterapia são sabidamente agressivas à fertilidade.
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A criopreservação é, aqui, parte do tratamento — não um “luxo”.
3. Homens em tratamento contra câncer
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O mesmo direito se aplica ao congelamento de espermatozoides quando há risco de infertilidade.
Quais documentos são necessários para pedir o procedimento ao plano?
Ter a documentação adequada é crucial para acelerar o pedido — e também para embasar uma possível ação judicial. Veja o checklist:
📋 Checklist de documentação
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Laudo médico detalhado justificando o risco de infertilidade;
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Solicitação formal do congelamento de óvulos, emitida pelo especialista;
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Exames que comprovem diagnóstico da doença (endometriose, câncer etc.);
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Negativa por escrito do plano de saúde (se houver);
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Contrato do plano e carteirinha;
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Receituário médico com os medicamentos para estimulação ovariana.
E se o plano negar o congelamento de óvulos?
Negativas administrativas são comuns, mas não são definitivas.
✅ O que fazer na negativa:
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Solicite a recusa por escrito.
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Guarde os documentos médicos e a prescrição do procedimento.
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Consulte um advogado especialista em Direito à Saúde.
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É possível ingressar com ação judicial com pedido de liminar.
Liminar: o tempo é essencial
Em casos como tratamentos oncológicos, a liminar permite realizar o procedimento imediatamente, evitando prejuízos irreversíveis.
Ação judicial para custeio de congelamento: como funciona?
A ação é uma obrigação de fazer, com pedido de tutela de urgência. A petição destaca que:
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O congelamento não visa fertilização assistida, mas prevenção da infertilidade;
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Há prescrição médica clara e risco documentado;
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A negativa do plano fere o direito à saúde e ao planejamento familiar (art. 196 da Constituição).
Diferença entre congelamento e fertilização assistida
Importante:
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A fertilização assistida não tem cobertura obrigatória (conforme o Tema 1067 do STJ).
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Mas o congelamento, quando feito para preservar fertilidade devido a doença, tem caráter preventivo e terapêutico.
⚖️ Congelamento de óvulos x Fertilização in vitro: entenda a diferença jurídica e por que isso muda tudo
Ao discutir a cobertura do plano de saúde, é essencial distinguir três procedimentos com finalidades distintas:
🔹 1. Fertilização in vitro (FIV)
É o processo laboratorial em que os óvulos e espermatozoides são fertilizados fora do corpo, formando embriões que são, então, transferidos ao útero.
📌 Entendimento do STJ (Tema 1.067 – Recurso Repetitivo):
“Salvo disposição contratual expressa, os planos de saúde não são obrigados a custear a fertilização in vitro.”
(STJ – Tema 1.067, julgado em 15/10/2021)
A decisão baseou-se na Lei 9.656/98, que exclui expressamente técnicas de reprodução assistida como obrigação de cobertura, e nas Resoluções ANS nº 192/2009 e 428/2017, que deixam claro que a inseminação e a FIV não são obrigatórias, salvo se contratualmente previstas.
🔹 2. Inseminação artificial
É o procedimento mais simples, em que o sêmen é introduzido diretamente no útero. Também está excluído da cobertura mínima obrigatória pela mesma base legal acima.
🔹 3. Congelamento de óvulos ou espermatozoides (criopreservação)
É a coleta e armazenamento dos gametas para uso futuro, antes que um tratamento médico comprometa a fertilidade.
📌 Aqui está a diferença crucial:
Quando indicado por necessidade médica preventiva (por exemplo, antes de cirurgia para endometriose ou tratamento oncológico), o congelamento não se confunde com reprodução assistida, mas sim com medida de preservação da saúde reprodutiva.
🧑⚖️ Jurisprudência recente e favorável ao consumidor
🔸 Caso 1 – Endometriose profunda
“O congelamento de óvulos, no caso, não é técnica de reprodução assistida, mas sim medida preventiva diante do risco de infertilidade causado por cirurgia.”
TJ-SP, Apelação Cível nº 1008502-47.2024.8.26.0008, julgado em 13/01/2025
🔸 Caso 2 – Câncer (linfoma não-Hodgkin)
“Medida que visa preservar a fertilidade da paciente, que poderá ser afetada com o início da quimioterapia. […] O procedimento de congelamento de óvulos não se equipara à inseminação artificial.”
TJ-PR, Recurso Inominado nº 0018499-66.2023.8.16.0014, julgado em 05/03/2024
🔍 Base legal reforçada pela Lei nº 14.454/2022, que estabeleceu que o Rol da ANS é apenas referência mínima, e não exaustiva.
🧩 Por que a diferenciação é vital?
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A rejeição automática do plano de saúde baseada no Tema 1.067 não se aplica ao congelamento com finalidade médica preventiva.
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Muitas operadoras confundem ou alegam indevidamente que congelamento é “FIV disfarçada”, o que já foi refutado judicialmente.
⚠️ Atenção estratégica:
Se o relatório médico demonstrar que a paciente ainda é fértil, mas pode perder essa condição com o avanço da doença ou com o tratamento, então a criopreservação é uma extensão do tratamento — e não do planejamento familiar.
Essa distinção muda completamente o enquadramento jurídico e legitima a exigência de cobertura pelo plano de saúde.
📌 Passo a passo: como solicitar o congelamento de óvulos ou esperma pelo plano de saúde
Nem sempre o plano informa seus direitos com clareza. Por isso, siga este roteiro completo para proteger sua saúde e seus direitos.
1. Converse com seu médico assistente
O primeiro passo é conversar com o médico que acompanha o seu tratamento. Ele é o profissional responsável por:
✅ Avaliar a real necessidade do congelamento de gametas
✅ Emitir o relatório médico com CID e justificativa técnica detalhada
✅ Especificar o risco de infertilidade decorrente da doença ou tratamento (ex: endometriose, câncer)
Dica prática: peça que o relatório mencione expressamente que o congelamento de óvulos/espermatozoides é parte essencial do tratamento de preservação da fertilidade, e não reprodução assistida.
2. Solicite o pedido formal ao plano de saúde
Com o relatório em mãos, protocole formalmente junto ao plano o pedido de cobertura do procedimento. O ideal é fazer isso de forma documentada (via protocolo em área do cliente, e-mail ou presencial).
Inclua:
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Relatório médico (com CID, assinatura e CRM do profissional)
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Laudos de exames (se houver)
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Requisição do procedimento
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Cópia do contrato e da carteirinha do plano
3. Peça número de protocolo e prazo de resposta
Segundo a ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar, os planos devem responder a solicitação de cobertura em até:
⏱ 72 horas úteis para procedimentos eletivos
⏱ 24 horas para situações de urgência com risco de infertilidade
Dica jurídica: sempre anote ou tire print do número de protocolo e a data/hora do pedido. Isso é fundamental para ações futuras.
4. E se o plano de saúde negar o pedido?
Caso receba uma resposta negativa, solicite:
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A negativa por escrito, com os fundamentos utilizados
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Nome, cargo e matrícula de quem forneceu a informação
Negativas genéricas ou sem justificativa médica são abusivas e contrárias ao art. 6º, III, do Código de Defesa do Consumidor (direito à informação clara).
5. Registre reclamação nos canais de defesa do consumidor
Antes de acionar judicialmente, você pode e deve registrar o ocorrido nos canais oficiais:
📞 SAC do plano – para tentar reverter a negativa (peça novo protocolo)
📄 PROCON – registre sua reclamação com todos os documentos
📬 ANS – site oficial: https://www.gov.br/ans
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Protocole sua denúncia usando o número do processo e os documentos
A ANS pode multar o plano de saúde por negativa indevida e forçar a cobertura do procedimento.
6. Organize toda a documentação para eventual ação judicial
Se a resposta continuar negativa, ou se houver urgência médica, é o momento de procurar um advogado especialista em saúde e plano de saúde.
Para isso, organize seu dossiê pessoal com:
📁 Relatório médico completo
📁 Todos os protocolos e números de atendimento
📁 Resposta (ou negativa) do plano de saúde
📁 Comprovação de que houve solicitação formal
📁 Documentos pessoais e contrato do plano
7. Atenção à evolução do quadro clínico da paciente
O ideal é que o médico assistente atualize o quadro da paciente ou do paciente durante o processo. Por exemplo:
📌 Indicar perda de reserva ovariana (via exame de hormônio antimülleriano)
📌 Evolução rápida da doença (ex: câncer invasivo ou endometriose grave)
📌 Previsão de cirurgia com risco de esterilidade
Essas informações são determinantes para reforçar a urgência e a necessidade do procedimento.
📍Resumo do passo a passo em lista rápida:
✅ Agende consulta com médico assistente
✅ Solicite relatório médico detalhado com CID e justificativa
✅ Protocole o pedido no plano de saúde com documentação completa
✅ Guarde protocolos e peça negativa por escrito se houver
✅ Registre reclamação na ANS e no PROCON
✅ Organize toda a documentação para ação judicial
✅ Mantenha o relatório clínico atualizado com evolução da doença
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Congelamento de óvulos é considerado tratamento ou reprodução assistida?
✅ Quando há doença com risco de infertilidade, é considerado tratamento preventivo.
2. Preciso estar doente para ter direito à cobertura?
❌ Sim. A cobertura judicial ocorre somente em casos com risco comprovado à fertilidade.
3. Quanto tempo os óvulos podem ficar congelados?
⏳ Por tempo indeterminado, desde que conservados adequadamente.
4. O que acontece se o plano negar e eu não puder esperar?
🧑⚖️ O ideal é buscar uma liminar com urgência. A demora pode tornar o direito inócuo.
5. Vale a pena entrar com ação mesmo sem garantia de vitória?
⚠️ Sim, se houver laudo médico e urgência. Embora não haja garantia, a jurisprudência é amplamente favorável.
Informação é poder — e ação é proteção
O congelamento de óvulos pode representar não só um ato de autocuidado, mas uma necessidade médica urgente. Se você recebeu um diagnóstico que ameaça sua fertilidade, você tem direitos — mesmo que o plano de saúde tente dizer o contrário.
📌 A negativa não é o fim da linha. Com apoio jurídico especializado, é possível transformar a recusa em acesso.
📞 Fale com um advogado especializado e tire suas dúvidas
Se você está passando por essa situação, fale agora com um advogado especialista em Direito à Saúde. Ele pode analisar seus documentos, avaliar a viabilidade da ação e garantir que sua saúde — e seus sonhos — sejam preservados com responsabilidade.




